
Ana Couto: “Tive uma psicose puerperal e sobrevivi”
Ana Couto era mãe havia apenas 15 dias quando uma psicose puerperal a levou a um internamento compulsivo numa unidade de psiquiatria. Sozinha, de colo vazio, sem perceber o que lhe estava a acontecer, “ou que crime havia cometido para ficar presa”. Enfermeira de neonatologia, nunca tinha ouvido falar da perturbação que lhe mudou a vida e que testou todos os seus limites. “De repente eu vivia numa realidade paralela, era outra pessoa”. O caso de Lindsay Clancy, que enfrenta nos EUA um julgamento por homicídio, acusada da morte dos três filhos, trouxe para a esfera pública uma discussão sobre a saúde mental no pós-parto e tornou mais visível uma condição ainda desconhecida para muitas pessoas: a psicose puerperal. Afecta uma a duas mulheres em cada mil, é o mais grave quadro psiquiátrico que pode ocorrer após o nascimento de um bebé e caracteriza-se por sintomas como desorganização mental, delírios, alucinações e perda de contacto com a realidade. Antes do internamento, Ana Couto passou por diferentes profissionais de saúde sem que o seu estado fosse identificado. Acabou por ser o marido a perceber que alguma coisa estava errada, ao detectar comportamentos que lhe pareciam desadequados à sua personalidade. A sua experiência levanta uma das questões centrais deste episódio do podcast Um Género de Conversa: se uma enfermeira de neonatologia nunca tinha ouvido falar de psicose puerperal, como podem as mulheres e as famílias, sem formação em saúde, reconhecer os sinais de alarme? Ana Couto defende que é preciso preparar melhor os profissionais de saúde para identificarem alterações da saúde mental no período perinatal. Os 15 dias de internamento pareceram-lhe uma eternidade. Fortemente medicada, conserva falhas de memória desse período, mas recorda episódios que a levam a questionar a forma como uma mulher no pós-parto, com todas as especificidades decorrentes desta condição, é tratada numa unidade psiquiátrica. Por exemplo, continuava a extrair leite, acreditando que este seria entregue à filha — a sua “única forma de sensação de controlo da situação naquele estado” — até perceber que o leite era deitado fora, sem que ninguém lhe explicasse porquê. Quando recebeu a visita da sua bebé, Ana já não conseguiu largá-la. A separação à força acabou por ser, nas suas palavras, mais traumática do que benéfica. A unidade onde esteve internada não permitia a permanência do bebé, como acontece noutros países. Para Ana Couto, uma mulher com psicose puerperal não pode ser tratada apenas na sua dimensão psiquiátrica. Há também um corpo que acabou de dar à luz, a recuperação física, a amamentação e a construção do vínculo com o bebé, todos eles factores que foram em boa parte alienados durante o seu internamento. Mais de dois anos depois, fala da experiência sem esconder o medo ou a ambivalência que podem acompanhar a maternidade. E sublinha uma distinção essencial: os pensamentos não são acções. Ninguém escolhe ter uma psicose puerperal, “ninguém tem culpa se passar por isso”, frisa. Escrever ajudou-a a processar o que tinha vivido. Dessa necessidade nasceu o livro “Tive uma psicose puerperal e (sobre)vivi”. O que começou como uma forma de catarse ganhou outro propósito: chegar a outras mulheres que possam ter passado pelo mesmo e mostrar-lhes que não são as únicas. E que é possível recuperar a felicidade depois de um evento tão transformador quanto este. See omnystudio.com/listener for privacy information.


