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Artwork for O Tal Podcast
Society & CultureRelationships

O Tal Podcast

Paula Cardoso e Georgina Angélica

Um espaço onde cabem todas as vidas, emocionalmente ligadas por experiências de provação e histórias de humanização. Para percorrer sem guião, com autoria de Georgina Angélica e Paula Cardoso.

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  • 31 episodes
  • weekly
  • Avg 1 hr
  • Portuguese
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  • S6 · E26
    Thursday · 51 min

    Yonara Mateus: "Achava que tinha medo de errar, mas percebi que o que me assustava era acertar e não saber lidar com o sucesso”

    Na infância fez do dicionário companheiro de brincadeiras e acabou por se tornar a menina das palavras bonitas. Mais tarde, a vontade de cantar as músicas de Whitney Houston deu-lhe o impulso para aprender inglês, língua que se tornou ferramenta de trabalho. Hoje, Yonara Mateus desenvolve o projeto The English Affair, inicialmente focado no ensino do idioma de Shakespeare, e entretanto alargado a aulas de português para estrangeiros. Mais recentemente, aventurou-se na publicação do livro “Da boniteza das coisas”, com o qual iniciou uma trilogia em homenagem à sua ancestralidade feminina, em particular à sua avó Rosa. Nascida em Angola, em 1983, Yonara mudou-se aos nove anos para Portugal, para fugir à guerra civil que assolava o seu país. Ao “O Tal Podcast”, revela uma infância marcada por um sentimento de não pertença, que a acompanhou até à idade adulta. De tal forma que a pergunta sobre onde seria, afinal, a sua terra nunca a abandonou: em Portugal, sentia-se rejeitada por ser negra; em Angola, para onde regressou aos 29 anos e viveu durante cinco, deparou-se com olhares moldados pelo colorismo, a partir da sua condição de “mulata”. Nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, Yonara conta que alimentava a expectativa de contribuir para a mudança e melhoria das condições de vida em Angola, quando decidiu voltar, mas acabou por perceber que as soluções para os desafios locais teriam de ser construídas por quem os vivia mais de perto. A experiência angolana também lhe permitiu desconstruir novas camadas da sua identidade, num caminho que culminou na capacidade de encontrar morada dentro de si. “Demorou quase 43 anos para chegar a esta conclusão de que a casa que eu procuro não é um lugar externo, um edifício, um país ou a minha dupla nacionalidade. É um mundo que tenho cá dentro e ao qual pertenço”. Em pequena, conta Yonara, era a criança que estudava o dicionário. Conhecida como a menina das palavras bonitas, foi através da tentativa de compreender o significado das letras das músicas de Whitney Houston que despertou a sua paixão pelo inglês. Essa relação com as línguas viria também a definir o seu percurso profissional: em 2013, fundou a The English Affair, uma escola dedicada ao ensino personalizado de inglês e português, onde procura criar experiências de aprendizagem mais humanas, flexíveis e ajustadas a cada pessoa: “Este gosto que tenho pelas línguas não era partilhado por toda a gente. Pelo contrário, para algumas pessoas era um sofrimento. É para essas pessoas que eu trabalho”. Entre a comunicação, o ensino e a escrita, há um fio condutor no seu percurso: a vontade de compreender o que nos torna humanos, e de encontrar formas mais autênticas de estar no mundo. Embora olhe muitas vezes para a vida e para o estado do mundo com desesperança, é na boniteza de ser que Yonara tem aprendido a encontrar o seu lugar, procurando sempre superar-se, mesmo perante os obstáculos que encontra pelo caminho. Foi também a escuta da sua intuição e a valorização da sua voz interior que a guiaram na criação do seu podcast ‘A Dor da Borboleta', projeto que reflete o seu próprio processo de transformação e a sua busca por uma maior humanidade e beleza, numa metamorfose constante, como a das borboletas.“Tudo o que tenho feito nos últimos anos para colocar a minha voz no mundo e sair do meu casulo tem nascido de um pedido cheio de amor, e de que é necessário dar voz àquilo que trago dentro de mim. Há pessoas que precisam de ouvir e eu própria preciso de o fazer para me transformar”. Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information.

  • S6 · E25
    October 15 · 1 hr 5 min

    Bia Ferreira: “O amor, o afeto e a gentileza me curaram. A alegria é a maior forma de subversão num mundo que naturaliza o ódio”

    Em Portugal, para apresentar o álbum “Améfrica”, que a 31 de outubro sobe ao palco do Centro Cultural de Paredes, a cantora e compositora brasileira Bia Ferreira partilha, neste episódio d’ “O Tal Podcast”, a alegria que marca esta fase da sua carreira, depois de um início marcado pela dor. Hoje dona do próprio selo discográfico, a também ativista está nomeada para um Grammy Latino, mas faz questão de sublinhar que não corre atrás de prémios. “A minha meta é construir um legado que daqui a 100 anos inspire meninas negras do Brasil, através da minha arte”. Ouça a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information.

  • S6 · E24
    October 8 · 1 hr 14 min

    Welket Bungué: “Cresci a ouvir do meu pai que, para ter uma oportunidade igual à dos meus pares, teria de trabalhar a 300%. Isto diz muito sobre a ideia de meritocracia”

    Ator, realizador e artista multidisciplinar, o guineense-português Welket Bungué é o convidado deste episódio d’ “O Tal Podcast”, no qual se cruzam as diferentes geografias, linguagens artísticas e cinematografias que marcam o seu percurso. Profissionalmente dividido entre Portugal, a Alemanha e o Brasil, Welket tem integrado várias produções internacionais, destacando-se o papel em “Crimes of the Future”, de David Cronenberg, que chegou à competição oficial do Festival de Cannes, mas não o projetou junto da imprensa portuguesa. A espiritualidade e a procura de um maior conhecimento de si próprio ganharam um lugar central na sua vida. Depois de uma experiência traumática vivida em 2023, no Rio de Janeiro, Welket iniciou um processo mais profundo de autoconhecimento, aproximando-se de diferentes tradições filosóficas, espirituais e conhecimentos ancestrais. Ao “O Tal Podcast”, fala sobre a reprogramação da mente, a intuição, a oração, a gratidão e a importância de reconhecer tanto a luz como a sombra que existem em cada pessoa. “Quando se trabalha para ascender espiritualmente, isso implica agir conscientemente, praticar atos de bondade, às vezes sacrificando-te pelos outros, e isolares-te para meditar e ouvir o teu coração, o teu Eu Superior - essa mente universal e cósmica que pode dialogar connosco quando estamos em silêncio.” Para o convidado desta semana de Georgina Angélica e Paula Cardoso, “o tempo é espiralar, circular e multidimensional”, e a forma como o vivemos não pode ser dissociada da cultura, do lugar, e da nossa própria compreensão de identidade. Questionando a lógica da produtividade associada às oito horas de trabalho, Welket defende a necessidade de recuperar tempo para cuidarmos de nós. É também a partir do seu próprio percurso que olha para o mundo artístico português. O esforço necessário para conquistar as oportunidades que lhe chegaram, a entrada no Conservatório e, mais tarde, a chegada a Cannes fizeram-no repensar a ideia de meritocracia e aquilo que está, ou não, ao alcance de um artista negro em Portugal. “Para ter uma oportunidade igual à dos meus pares, teria de trabalhar a 300% e não apenas a 100%”, afiança. Aliás, mesmo depois de integrar o elenco principal de um filme de David Cronenberg em competição oficial em Cannes, sentiu que o reconhecimento em Portugal ficou aquém do que esperava. Hoje, aponta que um dos problemas do país é “a incapacidade de absorção do talento dos filhos e das filhas que são produzidos neste território.” Entre a experiência e a transformação, Welket encontra na arte uma forma de transmutar o que viveu e de o devolver aos outros, ao mesmo tempo que vai demarcando o ofício de ator, da sua missão de vida. “A missão é perceber como, através do teu ofício, alavancas o que há de melhor nos outros.” Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information.

  • S6 · E23
    October 1 · 54 min

    Elga Fontes: “Portugal é um país racista e esse racismo acaba também por chegar às editoras. A literatura não tem cor”

    Elga Fontes cresceu rodeada de histórias. Por influência dos pais e dos avós, cedo os livros tornaram-se parte da sua vida, e acabaram por se tornar parte essencial da sua identidade e percurso profissional. Hoje é tradutora, revisora, editora, criadora de conteúdos sobre livros e autora do projeto “Quem Me Lera”. Coordena ainda a Kiala — nome que significa “trazer luz” —, uma chancela da Vírgula d'Interrogação exclusivamente dedicada à publicação de autores negros em Portugal. Com raízes familiares em Angola e Cabo Verde e nascida em Portugal, Elga cresceu entre diferentes referências culturais, numa multiplicidade de vivências que lhe permitiu alargar os horizontes e questionar a ideia de uma única forma de ver e habitar o mundo. Mais tarde, enquanto leitora e profissional do setor editorial, deparou-se com uma realidade que a inquietava: a enorme sub-representação de autores negros no mercado português. A criação da Kiala nasce dessa inquietação, mas também da vontade de intervir num mercado que considera pequeno e avesso ao risco. “Há muita produção de literatura por autores negros que não chega a Portugal. Muitos destes livros têm imenso sucesso, só que depois há um bloqueio que faz com que eles não cheguem cá.” Para Elga, esse ‘travão’ não pode ser dissociado do racismo estrutural: “Portugal é um país racista e esse racismo acaba também por chegar a uma editora.” Nesta conversa, fala ainda sobre a importância de divulgar livros e criar comunidades de leitores, estimulando hábitos de leitura, bem como sobre a experiência de partilhar recomendações literárias nas redes sociais, através do projeto “Quem Me Lera”. A aceitação do corpo, a liberdade de expressão e as referências que a foram transformando, não apenas como leitora, mas também como profissional, são também temas neste episódio, onde duas obras de Audre Lorde sobressaem: “Irmã Marginal | Sister Outsider”, e “Os Usos da Raiva”, ensaio que lhe permitiu repensar a forma de falar sobre o racismo. “Deu voz a tanta coisa que sentia e que tinha de calcar”, conta, peremptória na apreciação: “Mudou completamente a minha abordagem emocional à violência racista.” Entre sugestões de livros, publicações nas redes sociais e as novas funções editoriais, Elga reflete sobre identidade, representação e a procura de uma voz própria, mas também sobre a responsabilidade de abrir espaço para que outras vozes possam ser ouvidas. Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information.

  • S6 · E22
    September 24 · 58 min

    Arlinda Norris: “O meu nome era para ser Ana Cristina, mas a ir para o registo, o meu pai ouviu uma música de uma Arlinda. A minha mãe quase que o matou”

    Há cerca de dois anos, Arlinda Norris foi atropelada em Nova Iorque, acidente que abriu um novo capítulo na sua história, recém-partilhada no livro biográfico “She Kept Going”. Em português: “Ela seguiu em frente”. Nascida em Portugal, e durante cinco anos educada em Cabo Verde, a autora e ex-bailarina do cantor Emanuel, popularizada como “Nani do Pimba”, recorda, neste episódio d’ “O Tal Podcast”, como viveu o sonho e o pesadelo americano. Aos 50 anos, Arlinda Norris olha para a sua história e revisita cada recomeço. “O que fiz quando perdi tudo? Quando estava a um dia de ficar ilegal nos Estados Unidos? Quando não tinha casa para morar, e estava com os meus filhos na rua? Quando não havia comida?”. As respostas, encontradas nos momentos mais difíceis da sua vida, ajudaram-na a construir o “Método RLynda”, traduzido em seis passos que prometem deixar para trás qualquer adversidade: Libertar, Escutar, Ceder, Navegar, Discernir e Reconhecer. Expressão das suas aprendizagens, o método voltou a ser testado há pouco mais de dois anos, quando Arlinda foi atropelada em Nova Iorque. “Estava na passadeira, a luz estava verde. Lembro-me de estar feliz. De repente, senti um grande impacto.” Seguiram-se 13 operações e dois anos de reconstrução física e emocional. “Só me caiu a ficha mais ou menos um mês depois de estar em casa”, conta a convidada de Georgina Angélica e Paula Cardoso. A experiência determinou a escrita do livro “She Kept Going”, em que partilha os capítulos mais decisivos da sua trajetória. Nascida e criada em Lisboa, com uma forte ligação às origens cabo-verdianas, Arlinda recorda como a sua infância e início de adolescência foram profundamente marcadas pela mudança para a Ilha do Fogo. “Fomos por 15 dias e voltámos cinco anos depois.” Sem os privilégios a que estava habituada em Portugal, a autora reconhece que foi aí que aprendeu a adaptar-se às circunstâncias. Mais tarde, já de volta à casa lisboeta, começou a dançar para músicos, como o angolano Paulo Flores, que acabaria por se tornar o seu primeiro namorado. Foi, contudo, com o português Emanuel que correu o país de lés-a-lés e pisou vários palcos do mundo, percurso que lhe valeu o epíteto de “Nani do Pimba”. Até que o chamamento da maternidade se começou a impor. “Os 25 estavam a chegar, já estava cansada de estrada, de televisões, e disse: ‘Vou parar de dançar’”. Parou, viajou para tentar a sorte na cidade de Boston, mas viu-se na iminência de ficar em situação ilegal, desfecho que evitou com uma noite de trabalho num clube de striptease. Anos mais tarde, já casada com um basquetebolista, regressaria aos EUA para desfrutar o sonho americano, intensamente vivido até voltar a perder tudo. Ouça aqui a conversa completa com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information.

  • S6 · E21
    September 17 · 1 hr 13 min

    Didier Ferreira: “Sou amigo dos meus alunos. Gosto de me dar bem com eles, mas antes não pensava assim. Muitos professores esquecem que foram alunos”

    Estiveram cerca de 10 anos sem se ver, mas nunca perderam o contacto. Didier Ferreira e Diogo Rodrigues, professor e antigo aluno, respetivamente, voltaram a encontrar-se neste episódio d’ “O Tal Podcast, especialmente gravado para assinalar o arranque do novo ano letivo. Além de partilharem a importância do vínculo entre professores e alunos, os convidados de Georgina Angélica e Paula Cardoso reflectem sobre a missão da escola. Diogo estava no 11.º ano, com resultados que eram um “descalabro total” a Português, quando o professor Didier entrou em cena. Conheceram-se num centro de explicações e, no início, estavam ligados por um objetivo modesto: cabia ao professor garantir que o aluno conseguisse uma nota positiva no exame, para não prejudicar a média. Contudo, a relação próxima, divertida e comprometida que se estabeleceu entre os dois acabou por levar Diogo a exame com um 15, e a conseguir um 17 nessa prova final. O segredo? Para Diogo, está na capacidade de um professor ouvir, conhecer e reconhecer o outro, identificando as suas capacidades, limitações, pontos fortes e pontos fracos para, a partir daí, adaptar a mensagem a quem a recebe. Foi precisamente essa disponibilidade que encontrou em Didier, que rapidamente percebeu que o problema não estava na capacidade ou na inteligência do aluno, mas na sua motivação para a disciplina. A experiência com Diogo acabaria também por transformar Didier enquanto professor. “Antes via-me como um professor transmissor — que tem o conhecimento e o transmite ao aluno. Só que quando o aluno não quer aprender, que era o caso do Diogo, o que é que faço? Tornei-me um professor condutor e, acima de tudo, um aliado, um amigo.” A diferença, explica, é que deixou de pensar no seu papel apenas como o de alguém que transmite conhecimento, e passou a colocar a relação com o aluno no centro da sua prática pedagógica. No caso de Diogo, o gosto partilhado pela poesia e pelo rap tornou-se um dos elementos facilitadores e incentivadores do estudo. Por exemplo, se Diogo mantivesse as notas acima de 14, parte das aulas poderia ser dedicada à análise de poemas e letras de rap. Mais do que uma estratégia para melhorar resultados, o acordo permitiu que a aprendizagem partisse dos interesse do aluno, e que a explicação se tornasse um espaço de descoberta e experimentação. “Não esqueço que também fui aluno. Muitos professores esquecem que foram alunos”, nota Didier, dando, como exemplo, a distribuição do tempo. “Se a aula tem 45 minutos, vou dividir para que seja sempre no máximo 15 a 20 minutos de aula teórica, e a seguir prática. Tento não dar seca a ninguém, porque eu também não gostava.” Da gramática a “Os Lusíadas”, passando pelo “Sermão de Santo António aos Peixes”, o professor partilha algumas vias que utiliza para aproximar conteúdos complexos dos alunos: recorre a analogias, situações do quotidiano e exercícios que os desafiem a considerar outras perspetivas. Resumidamente, implementa uma pedagogia em que o aluno deve ser a “estrela” da sala de aula, enquanto o professor assume o papel de quem trabalha “na sombra”, conduzindo e criando condições para que cada um encontre o seu próprio caminho. Neste episódio, questiona-se também o papel da escola perante as transformações sociais, e os desafios que os alunos enfrentam. A conversa passa igualmente por uma reflexão sobre a burocratização da profissão docente, a distância entre os métodos de ensino e os interesses das novas gerações, o cyberbullying e as desigualdades sociais. Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information.

  • S6 · E20
    September 10 · 1 hr 3 min

    Miriam Santos: “Quando me dizem: ‘Prefiro procurar um psicólogo negro’, são pessoas que estão à procura de um espaço onde não sejam traumatizadas de novo”

    Miriam Pires dos Santos nasceu e cresceu entre três geografias: São Tomé e Príncipe, Angola e Portugal. A imersão em diferentes contextos culturais e sociais, aliada ao olhar atento às várias formas de ser e estar no mundo, despertou-lhe desde cedo um fascínio pelo comportamento humano. Essa curiosidade conduziu-a até à psicologia, área que ajuda a transformar a partir do trabalho da plataforma AfroPsis, um dos temas em destaque neste episódio d’ “O Tal Podcast”. Enquanto estudava no ISPA - Instituto Superior de Psicologia Aplicada, Miriam Pires dos Santos estranhou a ausência de alunos negros, limitada, em toda a faculdade, a outra colega, e extensiva, ao longo da formação académica, a um vazio de referências às comunidades afrodescendentes. Já em contexto profissional, foi a importância da sua presença que a interpelou, em particular numa casa de acolhimento onde a maioria dos jovens eram negros, levando-a a constatar a existência de um olhar pouco atento às questões de saúde mental das comunidades afrodescendentes. Entre inquietações, a psicóloga encontrou numa conferência sobre multiculturalismo, ao ouvir o colega Henda Vieira Lopes, o “clique” de que precisava. Nascia assim uma parceria que, de contacto em convite, levou à criação da AfroPsis, plataforma de psicólogos, psicoterapeutas e técnicos de Saúde Mental afrodescendentes em Portugal. Nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, Miriam Pires dos Santos fala sobre aquilo que é comum na experiência de pessoas negras no contexto da psicologia, explicando a importância de encontrarem terapeutas que reconheçam as suas subjetividades. “As pessoas negras, africanas, afrodescendentes, quando chegam até mim, frequentemente relatam um alívio de não terem que estar continuamente a justificar os seus contextos familiares e culturais.” Debruçando-se sobre as especificidades étnico-raciais, a psicóloga lembra também a existência de hierarquias raciais que persistem desde a escravatura e o colonialismo, e chama a atenção para as formas, muitas vezes subtis, através das quais se continuam a manifestar. Miriam partilha também uma reflexão pessoal sobre o seu percurso terapêutico, e sobre o “músculo psicológico” que foi desenvolvendo ao longo dos anos, para lidar com o sofrimento e com as pressões que atravessam a sua experiência. Uma trajetória que lhe permite reconhecer a complexidade da condição humana: por um lado a nossa capacidade para as “maiores violências e atrocidades”; por outro para “as maiores misericórdias e atos de bondade”. É nesse lugar que mantém a “esperança de que o bem e a capacidade para fazê-lo não esteja totalmente esmagada”. Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information.

  • S6 · E19
    September 3 · 1 hr 1 min

    Rodrigo Cardoso: “Eu e os meus irmãos fomos alvos de uma intervenção da CPCJ. Tinha 9, 10 anos. A educação era o único meio onde podia refugiar-me das minhas circunstâncias”

    Nascido e criado na Buraca, Rodrigo Cardoso, o convidado deste episódio d’ “O Tal Podcast”, cresceu num contexto familiar que desde cedo o levou a procurar na educação um espaço de refúgio e de possibilidade. Bolseiro de mérito, concluiu o ensino secundário com 19 valores, a licenciatura com 18, e agora prepara-se para tirar um mestrado em Jornalismo e Relações Internacionais na Sciences Po Paris, uma das mais prestigiadas instituições de ensino superior do mundo. Rodrigo Cardoso tem apenas 21 anos, mas já traz consigo uma história recheada de desafios, conquistas e experiências que o fizeram questionar a ideia de que o mérito, por si só, é suficiente para abrir portas. Ainda criança, foi acompanhado pela Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ), num período particularmente desafiante para a família. Fala da mãe com enorme orgulho e reconhece nela o seu maior exemplo de resiliência: uma mulher que conseguiu ultrapassar as dificuldades que enfrentou, recuperar a tutela dos filhos e reconstruir a própria vida. Foi também na escola que Rodrigo encontrou algumas das pessoas que mais contribuíram para o seu percurso. Duas professoras do primeiro ciclo foram fundamentais para lhe reconhecerem as capacidades e lhe mostrarem, desde cedo, que era um bom aluno. Mais do que o impacto no desempenho escolar, tiveram um papel determinante na construção da sua autoconfiança, dando-lhe a segurança necessária para acreditar que poderia ir mais longe e abrir caminho para outras possibilidades. “Foram as minhas professoras que me deram este boost de confiança e de aposta em mim próprio”, recorda. Hoje, com uma licenciatura concluída com uma média de 18 valores, a passagem por mais de 30 países e experiências em importantes fóruns internacionais, como as Nações Unidas, Rodrigo continua a questionar a ideia de que todos partimos do mesmo lugar. É crítico da narrativa da meritocracia e defende a importância do Estado Social e das políticas públicas na criação de oportunidades. “Não nascemos nas mesmas circunstâncias. Isso é um facto, não somos iguais.” Quando percebeu que não teria acesso à bolsa de estudo que esperava para prosseguir os estudos em Paris, Rodrigo recorreu a um crowdfunding. Em apenas 24 horas, conseguiu reunir os 14 mil euros de que precisava para financiar o mestrado, numa experiência que reforçou a sua convicção na importância da solidariedade e da responsabilidade coletiva. Também as bolsas de mérito que recebeu ao longo do percurso, nomeadamente da Fundação Calouste Gulbenkian, foram determinantes para chegar a lugares que, de outra forma, seriam difíceis de alcançar. Olha para o seu futuro com vontade de contar histórias. Quer produzir documentários, explorar a relação entre as gerações diaspóricas, as suas raízes e a arte, e trabalhar mais próximo das pessoas e das comunidades. “O meu lugar no mundo, neste momento, é transformar a minha história, aquilo que sei e tudo aquilo por que passei, numa espécie de nova chave que possa abrir mais portas.” Neste episódio de “O Tal Podcast”, Rodrigo fala também sobre a pressão que sente em contextos de grande exposição, como a ONU, sobre a dificuldade em aceder a apoio psicológico e sobre a relação da sua geração com o telemóvel. Partilha ainda uma experiência de saúde que viveu no Brasil, onde uma situação de urgência acabou por exigir uma intervenção cirúrgica, e explica por que decidiu tornar público um episódio sobre o qual, considera, ainda se fala pouco. Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information.

  • S6 · E18
    August 27 · 57 min

    Alexandre Teixeira: “Alguém que paga 6 mil euros a um traficante de pessoas para vir para a Europa, se tivesse um processo migratório regulado, não teria de passar por tantas dificuldades”

    Filho de angolanos que deixaram Luanda em 1975, para se fixarem em Lisboa, Alexandre Nuno Teixeira aprendeu cedo como os processos migratórios podem desestruturar a vida familiar. Atento e sensível aos desafios que surgem com a integração num novo país, o convidado desta semana d’ “O Tal Podcast” tem na área das migrações não apenas um território de especialização profissional, mas também de intervenção cívica. A chegada a Portugal confrontou a família Teixeira com uma realidade inesperada. “Vivíamos à beira da ribeira do Jamor durante a década de 70, 80, em que se jogava o lixo para a ribeira, nas traseiras”, conta Alexandre, explicando que as condições de vida adversas forçaram uma nova mudança. “O meu pai passou por um processo de integração muito complicado, que levou a que tivesse que emigrar. A primeira vez que veio a Portugal de férias eu nem o reconheci”, recorda o jurista que, nesta conversa, revisita a infância e a adolescência. Embora tenha nascido em Oeiras, é na margem Sul do Tejo que situa grande parte do seu património de memórias, marcado por convívios familiares ímpares, que vê como especialmente formativos da sua personalidade e identidade. Essas vivências acabaram por moldar decisivamente a forma como olha para o mundo: Alexandre construiu uma sensibilidade particular para as questões da integração e da inclusão, aprofundada no trabalho com migrantes e refugiados. Empenhado em criar pontes e encontrar vias de entendimento – sobretudo num tempo em que a desinformação tantas vezes aumenta distâncias e preconceitos – este especialista em migrações não mede esforços para aproximar pessoas e mundos. É assim que, em vez de alimentar o confronto, prefere dar a conhecer experiências positivas. “Às vezes convidam-me para ir a universidades falar sobre migrações. As pessoas estão à espera, muitas vezes, de um discurso reivindicativo. E eu opto por dar exemplos. Tenho centenas de exemplos de integração maravilhosos, de projetos lindos, de pessoas lindas e maravilhosas.” Nas histórias que encontra, à semelhança do que acontece na sua, há um lugar primordial ocupado pela família, hoje alargada às filhas. “A partir de certa altura, principalmente quando somos pais, chega um momento em que o nosso maior legado é deixar memórias.” Ouça aqui a conversa completa com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information.

  • S6 · E17
    August 20 · 1 hr

    Iolanda Évora: “Estamos cheios de verdades. Não haver esse ‘não sei, vou procurar saber’, acaba por nos consumir. Dá a impressão que tens que saber tudo, ter opinião sobre tudo”

    Doutorada em Psicologia Social, investigadora associada do CESA - Centro de Estudos sobre África e Desenvolvimento, e professora universitária, Iolanda Évora é a convidada deste episódio d’ O Tal Podcast. Nascida em Moçambique, viveu a independência do país, passou pelo Brasil recém-saído da ditadura militar e integrou um programa de reforma administrativa em Cabo Verde, país das suas raízes familiares. Nesta conversa, revisita esse percurso e explica como influenciou o seu olhar sobre a sociedade. As pessoas estão no centro da forma como Iolanda Évora pensa o mundo. Nesta conversa, a psicóloga social regressa várias vezes à importância das relações, da interação e do coletivo na construção da identidade. "Para você se identificar como um indivíduo, passa por esse reconhecimento coletivo", afirma. "A gente precisa ter mais consciência daquele ir e voltar. Ir e individualizar, mas individualizar coisas que partilhamos com os outros." A economia solidária também faz parte do seu percurso académico, a partir de uma tese de mestrado sobre cooperativismo, que a levou a estudar modelos de organização assentes na cooperação e na partilha, um interesse que mantém até hoje através da ligação ao Instituto Paul Singer, no Brasil. Ao longo do episódio, Iolanda Évora revisita ainda o debate sobre identidade, racismo e imigração, questionando a forma como essas discussões têm sido conduzidas. "Estão sempre a pedir-nos para descrever o que é ser negro, o que é ser imigrante", observa, defendendo que continua por conhecer o outro lado da discussão, referindo-se às conversas que acontecem entre quem ocupa posições historicamente dominantes, raramente presentes no espaço público. "Eu quero saber qual é essa conversa", reitera a investigadora, acrescentando: "Sei que há famílias [brancas] que vivem um grande desconforto quando se encontram, precisamente porque não concordam entre si. Não sei qual é a conversa que acontece ali." A investigadora partilha ainda a sua frustração com a pressão por resultados rápidos na academia, e defende uma investigação capaz de acompanhar a complexidade dos fenómenos sociais. Explica por que privilegia metodologias qualitativas, que permitem compreender a dinâmica dos processos para lá de um simples retrato da realidade. "A pesquisa quantitativa dá-te uma fotografia daquele momento. Mas, se tu queres entender como é que o processo funciona, dificilmente consegues isso com métodos quantitativos." A reflexão passa igualmente pela importância de se recuperar a humildade intelectual. "Estamos cheios de verdades", observa, perante um espaço público e académico onde considera existir demasiada pressa para chegar a conclusões. Ouça aqui a conversa completa, com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information.

  • S6 · E16
    August 13 · 58 min

    Miguel Sambé:  “Desacelerar não é importante apenas para o planeta; é também importante para nós, enquanto seres humanos. É por isso que gosto tanto desta frase: 'Sou ser humano, mas não sei ser humano'”

    Especialista em análise geoespacial e ciência climática, videógrafo e fotógrafo, Miguel de Andrade Sambé é o único português na Agência Espacial da Tailândia, onde desenvolve projetos ligados às alterações climáticas através de imagens de satélite. Nesta conversa para “O Tal Podcast”, este filho de pai guineense e mãe angolana, nascido e criado em Portugal, fala sobre a “triangulação de identidades” que marca profundamente a forma como olha para o mundo. Quando aos 28 anos viajou pela primeira vez para a Guiné-Bissau, Miguel somava já mais de 20 países na sua rota de voos. Mas foi esse destino, de encontro com a terra natal do pai, que marcou um antes e depois.“Em África aprendi a não olhar, mas sim a observar”, conta o geoengenheiro que, a par das viagens, tem na geografia uma grande paixão. Desde a infância estimulado pelos pais a aprender, foi com eles que o também videógrafo despertou a curiosidade pelo mundo e pelo conhecimento. Mais tarde, dividido entre o atletismo de alta competição no Sporting e a ciência, acabou por seguir uma carreira internacional na área da engenharia geográfica, desenvolvendo a fotografia e a videografia como linguagens complementares ao trabalho científico. “A ciência dá-me a confirmação matemática; a fotografia e o vídeo dão-me a confirmação e a conexão espiritual com a Terra.” Ao longo da conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, Miguel reflete sobre a importância de valorizar o conhecimento local, defendendo que pescadores, agricultores e comunidades tradicionais possuem saberes essenciais para compreender fenómenos ambientais e enfrentar as alterações climáticas. Para o investigador, a ciência deve aprender a escutar essas vozes. “O conhecimento científico é apenas um acessório. A base, essa, é o conhecimento local.” Outro dos grandes temas abordados neste episódio é a necessidade de a humanidade abrandar. “Desacelerar não é importante apenas para o planeta; é também importante para nós, enquanto seres humanos. É por isso que gosto tanto desta frase: 'Sou ser humano, mas não sei ser humano.'” Miguel de Andrade Sambé aborda também o racismo que enfrentou durante a infância, a educação exigente que recebeu dos pais e a forma como essas experiências moldaram a sua identidade. Partilha ainda a visão de um cientista que acredita que o futuro passa por aproximar o conhecimento académico dos saberes locais, e por reaprender a observar a natureza. Ouça aqui a conversa completa com Georgina Angélica e Paula Cardoso See omnystudio.com/listener for privacy information.

  • S6 · E15
    August 6 · 57 min

    Virgílio Varela: "Precisamos de resgatar o que hoje estou a chamar de soberania da imaginação. Quando não a temos, somos facilmente enganados, colonizados"

    Fundador da Human Fleet, facilitador internacional, contador de histórias e cultivador de possibilidades, Virgílio Varela é o convidado desta semana d’ “O Tal Podcast”. Enquanto percorremos a sua trajetória de vida, na qual tem procurado criar espaços de transformação humana e coletiva, conversamos sobre o que identifica como uma “crise de imaginação”, desafiando-nos a recuperar a capacidade de sonhar e projetar outros futuros. Cresceu no já demolido bairro de Santa Filomena, na Amadora, onde encontrou na comunidade o primeiro espaço de aprendizagem e pertença. Foi aí que percebeu que ninguém cresce sozinho. “Estou sobre os ombros de gigantes. Foram essas pessoas que me permitiram chegar a estes lugares. Eu nunca entro num lugar sozinho. Entro com todas elas.” Uma visão coletiva que continua a orientar a forma como olha para as pessoas e o trabalho que desenvolve. Começou por dar expressão a essa leitura do mundo na música, integrado na primeira geração do hip-hop português, tendo participado na compilação “Rapública”, a primeira do género editada no país e, por isso, reconhecidamente um marco. De volta a esses tempos, o convidado desta semana d’ “O Tal Podcast” recorda um movimento que abriu caminho para os talentos que se seguiram, e para quem a música era também um exercício de descoberta. “Sem dúvida que os livros que lemos e as referências que tivemos nos moldaram. Mesmo na música, éramos muito diggers. O digging é ouvires um tema e quereres saber quem o produziu, de onde vem aquele sample, quem é o autor.” Antes ainda dessas ‘escavações’ musicais, Virgílio conta que a leitura precoce do livro “The Silva Method” despertou-lhe a curiosidade por tudo aquilo que não se vê. Tinha apenas sete anos, e foi aí que começou a explorar a imaginação, os sonhos e o invisível, caminho que continua a influenciar a forma como vive, escreve e trabalha. “Quando somos crianças, vivemos muito naquilo que tocamos. ‘The Silva Method’ trouxe-me a consciência de que há coisas que não vemos, mas têm vida, têm força.” Para Virgílio, recuperar a imaginação é vital no mundo em que vivemos: “Precisamos de resgatar o que hoje estou a chamar de soberania da imaginação. Quando não a temos, somos facilmente enganados, colonizados.” Convicto de que “navegar num mundo como o de hoje” exige “ser capaz de sair da ilha, vê-la de fora e regressar com novos recursos e ferramentas”, o facilitador defende que “vivemos uma enorme crise de imaginação.” Nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, Virgílio Varela aborda igualmente o conceito de Ubuntu, a escrita como um exercício de sobrevivência, a cerimónia de cura que viveu durante uma travessia do Atlântico e as aprendizagens que recolheu junto de comunidades quilombolas e indígenas no Brasil. Reflete ainda sobre a necessidade de descolonizar a imaginação e reconhecer que existem outras formas de conhecimento, tão válidas quanto aquelas a que o pensamento ocidental nos habituou. Ouça aqui a conversa completa. See omnystudio.com/listener for privacy information.

  • S6 · E14
    July 30 · 50 min

    Gil Semedo: “Além da música, quero inspirar com a escrita. Acredito que Deus me fez um mensageiro para passar aquelas mensagens e inspirações para a multidão, e para mim”

    Popularizado como “Rei do Pop de Cabo Verde”, Gil Semedo conta, neste episódio d’ “O Tal Podcast”, como a sua carreira foi influenciada por Michael Jackson. Desde os 16 anos na música, já lá vão 35, o autor do hit “Maria Julia”, apresenta, a 11 de setembro, no Coliseu dos Recreios, o espetáculo “Caboswing - Novo e Velho Tour”. Uma oportunidade para revisitar alguns capítulos da sua história, incluindo a queda de um oitavo andar. “Continuar em cima do palco, a cantar, é mesmo um milagre, porque Deus disse: Ainda não é o teu tempo". Nascido em 1974, na ilha de Santiago, Gil Semedo emigrou para a Holanda aos seis anos. Inspirado pelos ritmos tradicionais cabo-verdianos – como o batuku, o funaná e a coladera – cruzou essas sonoridades com as influências musicais que encontrou fora do seu país de origem, dando vida a um novo género: o Caboswing. O sucesso das suas músicas ficou implantado nas memórias afetivas de muitos cabo-verdianos, e não só, fazendo parte da banda sonora de festas e celebrações até aos dias de hoje. Entre os seus maiores êxitos destaca-se "Maria Julia", tema que atravessa gerações e continua a encher pistas de dança sempre que toca, consolidando Gil Semedo como um dos artistas cabo-verdianos mais populares de sempre. Ao “O Tal Podcast”, o cantor, que hoje conta com 51 anos, recorda a influência que Michael Jackson teve no seu percurso: “Fui para a Holanda com seis anos e um ano depois, o Michael lançou o álbum “Thriller”. Teve tanto impacto e sucesso que eu apaixonei-me totalmente e disse: ‘Quero fazer isso, subir em cima do palco, alegrar os corações da multidão.” Com 35 anos de carreira e um concerto marcado para o Coliseu dos Recreios, no próximo dia 11 de setembro, Gil Semedo falou também sobre o seu mais recente álbum, “Caboswing: O Novo Capítulo”, lançado no final de maio. O novo trabalho inclui um momento especial: o primeiro dueto da sua carreira, gravado com a filha de 16 anos, Melodia. “A minha filha é a minha melhor composição. Uma composição viva”, afirma. Durante a conversa, o cantor revelou também detalhes sobre o grave acidente que quase lhe tirou a vida, quando caiu do oitavo andar de um hotel, no Senegal, permanecendo três meses em coma. “Eu continuar em cima do palco, a cantar, é mesmo um milagre, porque Deus disse: Ainda não é o teu tempo". Este episódio marcante, bem como a sua história familiar e o percurso de vida, estarão retratados na autobiografia que tem lançamento previsto para o final deste ano. Ouça aqui a conversa completa, com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information.

  • S6 · E13
    July 23 · 1 hr 3 min

    Felso Ganhane: “Trabalhei com migrantes e refugiados. Foram 40 e tal nacionalidades em cerca de quase quatro anos. Despi-me de muitos estereótipos e preconceitos”

    Natural de Maputo, capital de Moçambique, Felso Ganhane sonhava, desde criança, construir edifícios. Foi esse objectivo que o levou a estudar no Instituto Industrial 1º de Maio, ainda na terra natal, e mais tarde a mudar-se para Castelo Branco, onde tirou o curso de Engenharia Civil. A experiência aproximou-o do associativismo, território de descoberta de uma nova vocação, partilhada neste episódio d’ “O Tal Podcast”, entre reflexões sobre os desafios da migração. O envolvimento em projetos comunitários despertou em Felso o interesse por causas sociais e políticas públicas, levando-o a prosseguir estudos em Ciência Política e Relações Internacionais. Foi no contexto associativo que começou a trabalhar com migrantes e refugiados de mais de 40 nacionalidades, vivência que o levou a questionar estereótipos e preconceitos e o instigou a construir pontes entre diferentes comunidades. “Não há nada maior do que a satisfação de olhares para o teu entorno e perceberes: ‘Consegui impactar imensa gente.’” Em 2020, a participação na Academia Ubuntu revelou-lhe a filosofia do “eu sou porque tu és”, que descreve como transformadora, enquanto via a consolidação da ideia de uma vida orientada pelo serviço aos outros e pela construção de pontes. O percurso acabaria por levá-lo à representação da Comissão Europeia em Portugal — onde trabalhou com jovens na promoção do projeto europeu — e também à comunidade Global Shapers, iniciativa do Fórum Económico Mundial. Atualmente, concilia esta intervenção com o empreendedorismo tecnológico, sendo cofundador da SpectrAll, uma startup que utiliza inteligência artificial para apoiar a conformidade regulatória em cibersegurança de infraestruturas críticas. Pai de uma filha, explica que a paternidade redefiniu as suas prioridades. “Os meus propósitos passam principalmente por ser bom pai”, afirma, acrescentando que a responsabilidade de deixar um mundo melhor para as gerações futuras reforçou o seu compromisso com a procura de soluções. Nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, Felso Ganhane reflete ainda sobre a infância em Moçambique e o choque de chegar a Castelo Branco, os desafios da integração de migrantes na Europa, a importância da representatividade e a necessidade de arregaçar as mangas. “Podemos ser sempre adeptos e treinadores de bancada. Outra coisa é estar disposto e disponível a fazer acontecer, e querer ser parte da solução.” Ouça aqui a conversa completa. See omnystudio.com/listener for privacy information.

  • S6 · E12
    July 16 · 1 hr

    Patrícia Vaz: “Amo ver o mar. O dia-a-dia é tão corrido que necessitamos destes momentos, de olhar para o nada e simplesmente apreciar”

    Investigadora, gestora de programas na Fundação Calouste Gulbenkian e doutoranda em Estudos do Desenvolvimento, Patrícia Inês Vaz é a convidada desta semana d' “O Tal Podcast”. Nascida em Portugal, com raízes em Cabo Verde e Angola, construiu um percurso ligado ao conhecimento, movida por um profundo compromisso com a justiça social. Integrada na Fundação Calouste Gulbenkian, Patrícia Vaz acompanha programas de bolsas e iniciativas na área da Educação e Ciência, enquanto desenvolve a sua investigação de doutoramento sobre as relações entre o Norte e o Sul Global. “Se eu quero falar de desenvolvimento, tenho de entender toda a história que está para trás”, afirma, explicando a importância de compreender o passado para pensar as desigualdades do presente. As viagens de infância à Ilha do Fogo despertaram-lhe uma consciência precoce sobre o privilégio e a importância de criar oportunidades para os outros. Ao longo da conversa, fala ainda do papel da educação como ferramenta de transformação social, lembrando que uma bolsa representa muito mais do que apoio financeiro: “É a capacidade de alguém simplesmente estudar e focar-se no estudo.” Apaixonada por música, livros e viagens, Patrícia estreou-se recentemente na escrita para a plataforma “Rimas e Batidas”, onde entrevistou a artista Nenny, trabalho que descreve como transformador. Nos seus sonhos, tem de escrever um livro dedicado às vivências das mulheres negras, refletindo sobre identidade, colorismo e autoestima. “A sociedade é cruel connosco. Não é fácil para mulheres negras.” Nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, Patrícia Inês Vaz fala ainda da procura pelo seu lugar no mundo, recusando a ideia de caber numa única definição. “Ainda estou a tentar encontrar-me, e entender onde é o meu lugar. Mas sinto que são vários lugares. E eu estou bem também em ser vários lugares. Hoje, se calhar, é este lugar aqui e amanhã aquele lugar.” Ouça aqui a conversa completa. See omnystudio.com/listener for privacy information.

  • S6 · E11
    July 9 · 1 hr 3 min

    Carlos Kangoma: “Assusto-me quando vou ver as notícias. Sinto que estamos a descair para um certo regime, um tipo de fascismo light”

    Após cerca de vinte anos dedicados ao rap, a pandemia obrigou Carlos Kangoma, também conhecido por Lucy, a reinventar-se. Hoje é à frente do seu restaurante de gastronomia libanesa, o Mankooche, que encontra independência financeira para continuar a lutar pela justiça social e bem-estar coletivo. Além de refletir sobre o percurso que o levou da música ao ativismo, o convidado deste episódio d’ “O Tal Podcast” defende que o rap pode ser “uma forma de jornalismo”, capaz de dar voz às comunidades periféricas e desafiar a ideia de que “o bairro é só criminalidade e violência.” Ao longo da conversa, Lucy regressa ao bairro onde cresceu para refletir sobre uma infância marcada pela discriminação, repressão policial e ausência de oportunidades. Recorda que o primeiro contacto com a polícia aconteceu quando tinha apenas 11 ou 12 anos, enquanto jogava à bola, e descreve uma realidade em que “existe uma marginalização e uma discriminação feita de uma forma bastante violenta a nível físico e psicológico.” Apesar disso, rejeita os estereótipos frequentemente associados às periferias e lembra que é dali que saem muitos dos trabalhadores que garantem o funcionamento da cidade, destacando também o forte sentido de comunidade que caracteriza estes bairros. Filho de pais que fugiram de Angola depois da independência, Lucy fala ainda sobre o peso do trauma migratório e da herança colonial, refletindo sobre as desigualdades que continuam a marcar a sociedade portuguesa. Um dos exemplos que aponta é o sistema educativo, que considera “muito eurocêntrico” e que, na sua perspetiva, falha em valorizar a diversidade cultural e em oferecer referências positivas às novas gerações. A música surge, por isso, como uma forma de responsabilidade social. Para Lucy, quem cria também influencia, e isso implica um compromisso com a realidade de quem raramente vê a sua experiência representada no espaço público. Neste episódio, fala também do trabalho desenvolvido pelo movimento Vida Justa, onde o ativismo acontece no terreno, junto das comunidades. Defende que “o ativismo é uma forma de resistência” e sublinha a importância da organização coletiva para enfrentar as desigualdades, acreditando que a transformação social depende da capacidade das pessoas se unirem para reivindicar direitos e construir um futuro mais justo. Ouça aqui a conversa completa, com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information.

  • S6 · E10
    July 2 · 58 min

    Cátia Severino: “É importante esta sociedade começar a assumir que ser português não é ter um perfil específico. A Cova da Moura é tão Portugal como o Saldanha”

    Veio de Angola na barriga da mãe, e foi no Algarve que nasceu e cresceu antes de se mudar para Lisboa, onde construiu uma trajetória académica na área da Linguística. Convidada deste episódio d’ “O Tal Podcast”, Cátia Severino descreve a entrada no ensino superior como a “realização de um sonho de sobrevivência”, enquanto única via possível de mobilidade e dignidade, numa vida marcada pela precariedade, e guiada pela resiliência e educação. Do Algarve para Lisboa, Cátia trouxe não apenas o desejo de estudar, mas também um percurso atravessado pelo esforço contínuo: trabalhar de noite, estudar de dia, e sustentar um ritmo de sobrevivência que se prolongou muito além da licenciatura. Mesmo após o mestrado, doutoramento e pós-doutoramento, o descanso parecia sempre adiado. Só mais tarde, com apoio pessoal, conseguiu finalmente reconhecer e habitar as suas conquistas. Ao longo da sua trajetória, confrontou-se com várias experiências de discriminação, inclusive dentro da academia. Para começar, o seu sotaque “afro-algarvio” era frequentemente lido como menos legítimo. Somou-se a isso uma reprovação no 12.º ano, que alterou profundamente o seu percurso escolar, episódio que a obrigou a mais um ano de esforço, e que expõe as desigualdades muitas vezes naturalizadas no sistema educativo. Cátia reflete ainda sobre o “branqueamento social” do seu percurso, num meio académico onde se tornou frequentemente a única pessoa negra portuguesa. A sua experiência é também marcada por uma reflexão profunda sobre identidade, pertença e colorismo. Entre o Algarve e Lisboa, Portugal e Angola, Cátia descreve o impacto constante da pergunta “de onde és?”, apesar de ter nascido em Portugal. As suas viagens a Angola ativaram uma ligação íntima com a terra dos pais, mas também a consciência de uma identidade híbrida, que define como afro-portuguesa ou portuguesa negra. Neste episódio, Cátia revisita ainda a história familiar atravessada pela guerra, pelo colonialismo e pela migração, destacando figuras como a sua avó Angelina. Ao mesmo tempo, recorda os efeitos dolorosos do colorismo dentro da própria família e comunidade, onde o tom de pele podia determinar aceitação ou exclusão. Para Cátia, negar essa complexidade seria negar a própria história. Ouça aqui a conversa completa, com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information.

  • S6 · E9
    June 25 · 53 min

    Grada Kilomba: “Temos que aprender a aceitar quem as pessoas são e saber negociar, estar com essas almas. Há dificuldade em dialogar, porque há dificuldade em escutar”

    Inaugurou, no passado dia 2 de junho, em Paris, o “Memorial para o Genocídio dos Tutsis no Ruanda”, numa cerimónia de Estado, que contou com a presença do Presidente da França, Emmanuel Macron, e do seu homólogo ruandês, Paul Kagame. Dias antes, a 30 de maio, estava em Sintra, na abertura da exposição “O Fundo do Mundo”, patente até 26 de setembro na Albuquerque Foundation. Dona de uma abordagem artística que corre mundos, Grada Kilomba é a convidada deste episódio d’ O Tal Podcast. Reconhecida internacionalmente pelo seu trabalho sobre memória, colonialismo, raça, género, linguagem e poder, Grada Kilomba tem desenvolvido uma prática artística que cruza literatura, performance, instalação, vídeo e encenação. “O conhecimento tem que ser cruzado, estar constantemente em diálogo”, afirma. Artista transdisciplinar, com raízes em Angola e São Tomé e Príncipe, Grada fala sobre o seu mais recente projeto: "O Memorial para o Genocídio dos Tutsis no Ruanda", instalado em Paris. Encomendada pelo Estado francês, como reconhecimento da cumplicidade naquele genocídio, a obra representou o maior desafio da sua carreira. “A maior honra para um artista é ser convidado para pensar, elaborar e criar uma obra em honra de um milhão de pessoas assassinadas num genocídio”, partilha. Ao longo da conversa, Grada reflete sobre o processo de criação de uma obra que procura representar o aparentemente irrepresentável: a violência, a perda, o silêncio e a memória. Fala sobre as viagens que realizou a Kigali, dos encontros com sobreviventes e descendentes das vítimas, e da influência da tradição artística ruandesa Imigongo na construção do memorial. “Uma coisa é trabalhar sobre um tema, outra coisa é vivenciar e conversar diretamente com as pessoas que vivenciaram esse tema”, sublinha. Grada aborda também o papel da arte numa sociedade marcada por conflitos, desigualdades e traumas históricos. Na sua leitura, a tarefa do artista passa por abordar os assuntos com os quais a sociedade tem dificuldade em lidar, criando novos vocabulários e imaginários. “Trabalho com temas extremamente violentos, como a morte, a exclusão, a desumanidade, o genocídio, o esquecimento. É extremamente importante trabalhá-los, criando o belo, a poesia”. Num diálogo que atravessa a arte, a educação, a espiritualidade e a transformação pessoal, Grada Kilomba reflete ainda sobre a importância da transdisciplinaridade, do corpo como linguagem artística, e da necessidade de cultivar espaços de escuta e colaboração. Critica modelos educativos assentes na fragmentação do conhecimento e defende formas de aprendizagem baseadas no diálogo e na construção coletiva. Entre memórias, silêncios e processos criativos, a artista deixa uma reflexão sobre um dos grandes desafios do nosso tempo: a incapacidade de escutar verdadeiramente o outro. “Estamos num momento absolutamente catastrófico, rodeados de guerras, genocídios, ocupações, cumplicidades internacionais, violência explícita e o que parece absolutamente constante é a incapacidade de diálogo.” Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information.

  • S6 · E8
    June 18 · 56 min

    Assunção Fernandes: “Agradeço ao universo por esta visão que tenho. Não demoro muito ao pé das pessoas para perceber aquilo de que a comunidade precisa”

    Maria Assunção Fernandes Lopes Tavares, mais conhecida como “São”, nasceu em Fundura, no interior da ilha de Santiago, em Cabo Verde, e emigrou para Portugal com 22 anos. A convidada deste episódio d’“O Tal Podcast” cresceu numa família onde o serviço à comunidade fazia parte do quotidiano – os pais eram catequistas e ensinaram-lhe, desde cedo, que ninguém constrói nada sem os outros. “Não fazemos nada sozinhos. Temos de ter sempre alguém a apoiar, de uma forma ou de outra.” Ao chegar ao bairro da Pedreira dos Húngaros, entretanto demolido, São deparou-se com uma realidade que a inquietou: a falta de oportunidades para crianças e jovens, e uma forte segregação social. Sem recursos, mas movida pela vontade de fazer a diferença, recuperou a paixão pelo andebol que tinha desenvolvido na juventude, e lançou um projeto que viria a mudar centenas de vidas. “Começámos a treinar num campo de futebol, um descampado. No início nem tínhamos bolas”, recorda. O que começou com algumas raparigas curiosas tornou-se um espaço seguro de crescimento, pertença e desenvolvimento pessoal. Ao longo dos anos, o desporto abriu horizontes, fortaleceu a autoestima de muitas jovens filhas de imigrantes e ajudou-as a desenvolver competências que transportaram para a vida adulta. Paralelamente ao trabalho comunitário, São nunca desistiu da sua formação. Entre a família, o emprego e os treinos, estudou à noite para completar o ensino secundário e, mais tarde, ingressou na universidade. Licenciou-se em Serviço Social e concluiu um mestrado com uma tese dedicada ao impacto do andebol na integração social de jovens raparigas. “A [autoestrada] A5 foi onde eu estudei mais, de noite, de madrugada”, conta, lembrando os anos de esforço e perseverança. Neste episódio, fala também sobre os projetos que continua a dinamizar, como o grupo de mulheres “As Marias”, e os Centros de Apoio ao Estudo em bairros municipais de Oeiras, onde procura criar novas oportunidades para crianças e famílias. Reflete ainda sobre os desafios pessoais que enfrentou ao longo do caminho, incluindo os sacrifícios familiares que a sua dedicação exigiu. “Em alguns momentos, esqueci-me dos meus filhos. Dos filhos dos outros, nunca me esqueci”, confessa com honestidade. Entre histórias de resiliência, liderança e serviço, São Fernandes partilhou com ‘O Tal Podcast’ a visão que orienta a sua vida: a crença de que a empatia, a educação e o trabalho coletivo têm o poder de transformar comunidades. “O universo ajuda quando a pessoa trabalha com sinceridade, com empatia.” Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information.

  • S6 · E7
    June 11 · 1 hr 6 min

    Wilds Gomes: “Poderíamos ser todos melhores humanos se tivéssemos terapia por cada indivíduo que está aqui nessa terra”

    Jornalista, apresentador, gestor de marca e autor do livro infantil “A girafa do Noah”, Wilds Gomes é o convidado desta semana d’ “O Tal Podcast”. Natural de São Tomé e Príncipe, veio para Portugal quando tinha apenas 4 anos, e desde sempre se viu rodeado de afectos, razão pela qual se confessa “uma pessoa de amor”, com facilidade para falar de sentimentos e expressá-los. Comunicador nato, Wilds conta que a grande transformação na forma como passou a olhar para si, e a procurar ser uma melhor pessoa, foi a experiência da paternidade. “Acho que me tornei adulto de verdade após o nascimento do meu filho”. A separação da mãe dos filhos mais velhos foi um momento que o fez parar e refletir sobre quem realmente era e o que queria na vida. Esse período mais sombrio levou-o a valorizar mais o auto-cuidado, e a procurar terapia. Uma das formas de conexão que tem desenvolvido com os filhos é a leitura noturna, algo que não teve na infância. Foi também por esta razão que escreveu o livro “A girafa do Noah”, publicado no final do ano passado, e no qual aborda o luto de uma forma adaptada para crianças. “Eu quero escrever sobre algo que faça sentido, que os pais consigam refletir e falar com os seus filhos, embora sejam conversas difíceis de ter.” Ao “O Tal Podcast”, o apresentador de 34 anos revelou que uma das maiores inspirações da sua vida é a relação dos pais que, após mais de três décadas de união, recentemente subiram ao altar. Wilds teve um papel fundamental na boda, tendo sido responsável pela compra do anel para o pedido de casamento feito pelo pai. Nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, o são-tomense falou ainda sobre a sua “Carta aberta aos homens negros que odeiam as mulheres negras”, onde desafia preconceitos, e convida a uma reflexão sobre a forma como mulheres da sua comunidade são tratadas. Para o apresentador, o amor, o respeito e a proteção das mulheres negras são também uma forma de resistência e transformação. Ouça aqui a conversa completa. See omnystudio.com/listener for privacy information.

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