
O regresso dos percevejos, das Karens e das Tinas. Outra conversa entre os outros dois
O diabo daria a sua bênção a esta época, se fosse capaz de abençoar seja o que for. Disto, creio que estamos todos convencidos. Eis-nos de volta ao aperto da mais trocista das molduras, e vamos justificando-nos com uma espécie de compulsão, o voltarmos de cada vez, como se por inércia, caídos em circunstâncias em relação às quais todos se confessam alheios, num ambiente de onde, na verdade, apetece é escapar. Quem sofra maleitas por manter alguma luz acesa na divisão da consciência, anda por aí sentindo-se forçado a tomar parte numa valsa dos suicidas, procurando suportar toda essa farsa, sendo que se podia deitar tudo ao lixo, a começar pelas múmias que vemos triunfar e capturar os lugares de destaque. Num país civilizado teria já rebentado uma guerra civil, nem que fosse para impedir este azucrinante estreitamento da peça, mas como as paixões vitalistas, os grandes arroubos foram descatalogados, tendo-se tão má impressão da vida no geral, sobra esta guerra entre lacaios, entre jagunços, este jogo das cadeiras, e não deixa de ser uma guerra, mas só por poleiros, nem direito a sangue temos, e consegue, assim mesmo, ser ainda mais repugnante, mais desprezível. Há quem tenha memória de outros tempos, quem nos diga que cresceu perto de jovens duros, duros e sensíveis aos períodos de pura desolação, que atacam e tolhem até os espíritos. Aquele tipo também se lembrava de um tempo em que a maior virtude desta espécie traidora era a coragem, a única que tornava muito claro qualquer diferença, a não cedência ao cálculo, e depois também os adeuses… Há um génio na rejeição, o desses tipos que não se deixam confundir nem integrar, perfis cortantes, que adoptam como referência outro período, decoram algum buraco como se estivessem a induzir um transe, impregnando-se da consciência de si mesmos como artefactos desse tempo mais puro e mais honroso, e procuram assim na expressão de alguém, atravessar a vida «como um rato que atravessa uma píton», um inchaço perceptível na musculatura lisa do resto. Têm em relação a essa históriz do «mundo» a mesma condescendência que se tem face a uma qualquer tendência azucrinante, uma ficção de mau gosto, que, mais tarde ou mais cedo, cederá espaço a outra coisa. E nisto, aquele bruxo ri-se e exclama: «Ah! A miséria do imaginário e do simbólico. O real sempre adiado para amanhã.» No meio deste fúnebre e frívolo carnaval, desde que os poderosos aprenderam a gerir a situação por meio de uma extorsão metodizada que recobriu todos os aspectos da nossa existência, e se ninguém contesta que este tempo soube tem coleccionado um impressionante número de crápulas, ser mau tornou-se uma imperiosa necessidade, sendo evidente que não se sai disto sem uma bulha para os anais, mas, e infelizmente, continuamos a chupar missas, esses figurotes que desfilam por aí os reflexos de um mesmo eixo nervosos amolecido, vindo com uma prédicas, uns tradicionalismos bacocos, umas moralidades que nos rebaixam a todos. Anda aí tudo numas momices, numas poses enfáticas, e assim nos condenam a esse longo suicídio declamatório que não mais terminará, enquanto todos parecem muito confortados com saber o que seja isso do artista, do poeta, estendendo-se por toda a parte o museu de cera, estas figuras embalsamadas na luz de mijo das instituição e enredos do prestígio. Mas de que servem os poetas em tempos de indigência? E não é óbvio? Dos poetas exigir-se que nos seduzissem para um embalo perverso, para as função desmoralizadoras, para nos arrancar aos moldes, a esse desígnio em que se supõe que o ideal é que cada um dos nossos passos possa ser exposto numa montra qualquer, cada atitude ou gesto exibida como exemplar, em vez de provocar perturbação, desordem, indigestão. Num tempo que aniquila todo o carácter interventivo, aos poetas pediríamos que nos amparassem na queda, encorajando o nosso riso sarcástico e agravem os nossos vícios ou as nossas estupefacções, como sugere Cioran. Lê-se as colecção da poesia contemporânea e não se dá por nenhuma maldade profunda, nem sequer aquela leveza dos seres encantados por se terem visto livres da tentação ou do remorso. Os versos que fazem alguma coisa num tempo assim desequilibram-nos, mostram-se maravilhosamente debilitantes… Também se poderá conceder que o papel de outro, de abordagem mais difícil, porque não alinham com as nossas amarguras e obsessões, poderá ser o de trazerem o conflito para um nível mais íntimo, e aparecem quando estamos maduros o suficiente para estarmos já um pouco fartos de nós mesmos, das nossas lamúrias. Estes surgem para salvar-nos das convicção em que nos deixamos engessar, quando essa mania, eminentemente moderna, de protestar e reivindicar parece ter-se tornado a única estratégia para a definição de uma personalidade, e assanhamo-nos com tudo por isso se ter tonado reconfortante. Nessas alturas, como vinca Cioran, é decisivo encontrar um espírito que jamais sucumba a esses empolamentos dramáticos, ao teatro das penas, injectando no nosso ânimo um sangue estranho que nos force a recuar perante essa comédia da dor e da revolta. Mas faltam poetas, faltam os profanadores do improfanável, falta quem corte com a ladainha neste sentido ou naquele, sendo evidente que «aquilo que persistia de tensão apaixonada entre o prazer e a sua busca aventurosa já se desagregou numa sucessão ofegante de gestos reproduzidos mecanicamente, e num ritmo do qual em vão se espera que este eleve nem que seja a um simulacro de orgasmo», como bem notou Vaneigem. No momento actual, com a corrosão a que os imperativos económicos sujeitaram já os próprios sentimentos e paixões, vinculando toda a urgência à satisfação de vícios, necessidades falsas, estamos naquele ponto em que pouco mais nos resta do que a lembrança de termos feito parte de uma espécie tremendamente audaz. Mas agora, mesmo entre as lendas e no confronto com a história, parece que nos vemos obrigados a viver apenas retrospectivamente, a admirarmos essa espécie com a qual fomos perdendo todos os laços. Afundados num tom baixo, até os piores crimes, os efeitos mais letais, não deixam de se mostrar reles, resultado de seres que alcançam a infâmia pelo lado da sordidez. E que lamuriosos são, tomando como estilo o gemido agonizante de obras que vão saindo em série, rematando um vazio de experiência que nada tem a ver com a altissonante grandeza daquilo que nos é narrado nos relatos de qualquer período orgulhoso. Mas se hoje alguns se apresentam como poetas, sabemos que não passam de farsolas. Os poetas que aprenderam a divertir-se com o que aborrece ou escandaliza os outros, foram expulsos, irradiados da cidade. Não perguntem para que servem os poetas, mas para que servem os indigentes que se põem com essas interrogações, quando eles mesmos não têm a menor paciência nem têm tempo para impor às suas vidas qualquer dose de eternidade.


















